Quando o comediante não faz graça

Habacuque é um dos profetas que fica tão angustiado ao ver o pecado do povo que trava um diálogo interessante com o Senhor. Ele pergunta até quando Deus permitiria aquilo, e Deus responde dizendo que enviaria a Babilônia. Isso gera uma revolta no profeta, que não consegue entender como Deus poderia usar um povo ímpio para punir o seu povo.
E na resposta de Deus ao profeta está uma declaração que seria fundamental 2.100 anos mais tarde na Reforma Protestante:
"Olhe para os arrogantes, os perversos que em si mesmos confiam; o justo, porém, viverá por sua fidelidade a Deus." Habacuque 2:4 | NVT
Estamos em 2026 e acabei de ter o desprazer de ver um vídeo em que uma das figuras mais críticas ao evangelho no Brasil, autor e protagonista de inúmeras esquetes de humor em que o evangelho é ridicularizado, ateu assumido, debochado, irônico, apresenta um vídeo expondo as mais tristes ações de pessoas que perderam completamente a noção do que realmente significa ser um cristão ou, pasmem, a responsabilidade de liderarem uma igreja.
Cresci nos anos 80 e vi explodir a guerra entre a Universal e a Globo, as tristes cenas de pastores carregando sacos de dinheiro. Depois, a teologia da prosperidade ganhou força e começou a modificar a pregação em um número considerável de igrejas. Mesmo assim, os evangélicos foram crescendo, se tornaram um nicho assustadoramente rentável, uma indústria foi criada ao seu redor.
No fim dos anos 90, a febre das "celebridades" evangélicas. Nos anos 2000, a força midiática da igreja brasileira se tornou inegável: ministérios musicais se multiplicaram, megaeventos viraram rotina, milhões de CDs vendidos e o envolvimento político cada vez mais profundo.
Achei que nunca mais veria algo tão vergonhoso como um pastor sendo exposto em rede nacional orando e agradecendo a Deus pela propina... como eu queria estar enganado.
Estamos em 2026 e o maior escândalo financeiro da história do Brasil começa com relações criadas dentro de uma igreja. Por 30 minutos, Fábio Porchat expõe uma das mais importantes igrejas do Brasil, pega uma pregação antiga de seu principal pastor por décadas e mostra como o próprio filho ignorou a mensagem pregada com zelo pelo seu pai.
Carros de luxo, ostentação, vaidade, área VIP, pulseiras, criação de serviços financeiros. Uma mistura assustadora de objetivos que nem de longe lembra a missão que Cristo deu à igreja.
Me vem à mente a vida do profeta Jeremias, que passou 40 anos denunciando o pecado e sofrendo todo tipo de humilhação e privação. O ministério dele se desenrolou no confronto de três potências: a Assíria em declínio, o Egito tentando ocupar o vácuo e a Babilônia nascendo como força dominante. Judá, espremida no meio, oscilava entre alianças políticas, enquanto Jeremias insistia que o destino da nação não seria decidido por dirigentes ou exércitos, mas pela relação do povo com o Deus da aliança.
Uma parte expressiva da liderança evangélica brasileira parece ter se esquecido disso e corrompe a relação do povo para com Deus, acreditando que a salvação vem da política!
Finalizo essa reflexão, ou desabafo, lembrando com temor e tremor do diagnóstico de Jesus sobre a igreja de Laodiceia, que revela um abismo profundo entre a autoimagem da comunidade e a realidade espiritual vista pela Testemunha Fiel. Enquanto a igreja vivia sob uma ilusão de plenitude, o Senhor trazia à tona a verdade nua e crua, confrontando o autoengano com um choque de realidade.
Para nós, este diagnóstico é um alerta para os próximos anos: a maturidade cristã não é medida pelo que acumulamos, mas pelo quanto reconhecemos que dependemos do Senhor. O autoengano é a barreira final que impede a entrada do Investigador.
O encerramento de Apocalipse 3 traz uma das imagens mais profundas e comoventes de toda a Escritura: Jesus, o Criador e Sustentador do universo, está do lado de fora da Sua própria igreja, batendo.
Essa é a ironia máxima da autossuficiência. Laodiceia era rica, reconhecida, cheia de si. E não percebeu que o Dono da casa havia sido deixado do lado de fora.
Ele não invade. Ele bate e espera.
Se Ele estivesse batendo hoje na porta das nossas igrejas, das grandes, das famosas, das da televisão, e também na minha... de que lado da porta estaríamos?
Uma parte considerável da igreja brasileira precisa urgente parar e avaliar: Cristo está à mesa ou batendo a porta? Porque uma hora a graça acaba, e as batidas não vão ser educadas...




