Encontre um vilão e tenha conteúdo sem fim para a sua banda
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Tem um filme do Woody Allen chamado O Homem Irracional. O protagonista é um professor de filosofia em crise. Sabe tudo sobre Kant, Sartre e o sentido da vida, mas não consegue sentir nada. Até ouvir, por acaso, a história de uma mulher sendo destruída por um juiz corrupto. É uma injustiça concreta que desperta sua raiva. A partir daí, ele volta a dormir, comer e escrever. A vida ganha peso de novo.
O que mudou? Ele encontrou um vilão.
A maioria das bandas passa a existência tentando responder “o que somos?”, quando talvez a pergunta mais importante seja: o que a gente não aguenta mais ver existir?
Pode ser a indústria que fabrica músicas para algoritmo, a cultura que pune quem foge do padrão, a performance vazia de artistas que nunca disseram nada de verdade. Pode até nascer de uma provocação aparentemente pequena, como um movimento criado para se posicionar contra determinado grupo e, logo depois, outro movimento surgir para se colocar contra o primeiro. A própria reação passa a fazer parte da identidade.
Não importa qual seja o alvo. Importa que seja algo real, que incomode e faça a banda sentir que precisa existir como resposta. Porque existe uma diferença entre ter algo contra o que lutar e simplesmente fabricar um inimigo para conseguir atenção.
Sem isso, você pode ter som bom, visual bonito e letra trabalhada. E ainda assim parecer apenas mais uma banda no feed. Com um antagonismo real, a música (e todo o resto) ganha outra função. Deixa de ser apenas música e passa a ser resposta. O show deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser posição.
Abe Lucas resolve seu vazio de uma forma bastante problemática, e o filme mostra as consequências disso. Mas há uma ideia ali que vale pensar: o que você combate pode definir sua identidade tanto quanto aquilo que você afirma ser. Às vezes, aquilo a que você se opõe diz mais sobre você do que aquilo que você diz que é.
E onde Jesus entra nessa história? Talvez ele não dissesse que uma banda não precisa de um vilão para turbinar sua criação de conteúdo. Talvez fizesse outra pergunta: “O que acontece com vocês quando aquilo que vocês combatem ganha um rosto e se torna um inimigo?”
Gustavo Gutiérrez, teólogo peruano, costumava dizer que, para ser um bom cristão, é preciso ter ao menos um inimigo, porque sem ele não dá para cumprir o preceito de Jesus. O interessante é que Jesus não elimina o inimigo da equação. Ele muda o que fazemos com ele.
Você pode combater a indústria sem odiar quem trabalha nela. Pode denunciar a hipocrisia sem desprezar o hipócrita. Pode enfrentar uma injustiça sem desumanizar quem está do outro lado. Pode fazer uma música contra alguma coisa sem deixar que aquilo contra o qual você luta passe a definir quem você é.
A diferença entre ter um inimigo e precisar de um inimigo talvez esteja justamente aí. O primeiro pode revelar uma posição. O segundo pode revelar que “o vazio no peito é do tamanho de Deus”.




