O que Anitta revela sobre o mercado gospel

Se Anitta canta sobre orixás e incorpora referências das religiões de matriz africana em "EQUILIBRIVM II", ela continua fazendo pop. E ninguém pensa em chamá-la de "pop de candomblé". Porque seria estranho. Redutor. A religião entra como cultura, estética, identidade. Não como sobrenome artístico.
Agora, experimenta montar uma banda de rock e escrever meia dúzia de músicas sobre Jesus. Pronto. A religião sequestra o gênero.
Nem importa se você não se identifica com o rótulo. Nem se o som lembra Black Sabbath, Slayer ou Marilyn Manson. Se amanhã o cabra resolver tocar hardcore, vira hardcore cristão. Se fizer reggae, reggae cristão. Se inventar um indie, lá vem indie cristão. O adjetivo gruda igual carrapicho. Rodox que o diga.
Não é culpa de ninguém, nem obra do Espírito Santo ou do capeta. É mercado. Gospel, no Brasil, é categoria de mercado. Tem gravadora, rádio, televisão, premiação, festival, circuito de shows, eventos em igrejas com estrutura profissional e um público fiel (literalmente). Uma cidade inteira construída em torno dessa palavra.
Acontece que, para alguns, a cidade é Jonestown.
Tem gente que só quer fazer rock. Rock falando de Jesus, é verdade. Mas rock. Não é uma fuga de Jesus. É uma fuga do espaço na prateleira entre a academia gospel e a água do Jordão engarrafada. Uma fuga desse beijo de Judas moderno, que identifica o artista antes que a música possa falar por si.




