Cristão é substantivo, não adjetivo: Ricardo Alexandre critica rótulo
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“Arte cristã não se parece com arte. Nem com Cristo.” Ricardo Alexandre
A frase é do jornalista Ricardo Alexandre, dita num episódio do podcast Irmãos Ponto Com, ao lado de Rodolfo Abrantes, que dispensa apresentações, e do apresentador Paulinho Degaspari. E ela não foi dita como provocação. Foi dita como diagnóstico.
O ponto de partida é uma distinção que Ricardo carrega como um chavão assumido: cristão não deveria ser adjetivo. “Quando você bota cristão de adjetivo, você já acende a luz amarela. Opa, coisa boa não veio aí. Cristão é substantivo. É o cristão que faz arte.”
A partir daí, o argumento se desdobra. Quando a arte recebe o selo de cristã, ela passa a operar dentro de um conjunto de restrições. Esse instrumento não pode, esse ritmo não pode, essa cadência não pode.
Para ilustrar como esse cerceamento funciona na prática, Ricardo citou um caso recente. “A gente viu o que aconteceu com o Coletivo Candiero agora há pouco. Começaram a fazer referências: ‘ah não, porque isso aí é candomblé, ou é umbanda, ou seja lá o que for, isso não é crente o suficiente’.”
Para ele, o resultado é quase automático. A arte vai perdendo espaço e virando algo mais controlado, mais previsível. “Não dá para ser arte e ser cheio de regras. Senão vira jingle.”
Mas a crítica não fica só no campo da estética. Ricardo amplia: “A arte cristã nesse sentido não se parece com arte. E também não se parece com Cristo. Porque Cristo é aquele pastor que deixa as 99 ovelhas que se julgam seguras para falar com a ovelha bêbada no bar do rock.”
Rodolfo entra curto, quase cortando o raciocínio: “E a ovelha que se perdeu, que se lasque para voltar, né?”
Ricardo, que há mais de 30 anos cobre música e cultura, passou por revistas como Bizz, Trip e Época São Paulo, venceu o Jabuti de biografia e hoje integra a equipe de roteiristas do Conversa com Bial. Também é autor de livros sobre o rock brasileiro. Abre parêntese: um deles comenta a histórica entrevista do Catedral ao Usina do Som em 2001; fecha parêntese.
Ele faz questão de separar as coisas. Não está falando de música de igreja ou congregacional. “Isso aí não tá em discussão aqui, pelo amor de Deus.” O alvo é outro: o mercado que se formou em torno do adjetivo “cristão”.
Um ecossistema que, como já apontaram mestres como Zé Bruno, da banda Resgate, se retroalimenta e também se isola. “Quando a gente cria esse mercado onde cristão é adjetivo, a gente acaba ferindo a arte e também o que deveria ser uma imitação de Cristo.”
O apresentador Paulinho Degaspari trouxe à conversa uma tese que Ricardo defendeu no TCC: a de que a manifestação artística é incontrolável em qualquer lugar, exceto no mundo evangélico, onde ela é gerida.
Rodolfo traz outra camada. Diz que, quando cantava só em igrejas, seu maior objetivo era cantar a Escritura da forma mais pura possível. Pegar uma passagem bíblica, colocar melodia e entregar isso como arte.
Até que chegou aos Salmos.
“Aquelas eram canções tão carregadas de verdade e tão livres que viraram Escritura. Ou seja, não é a respeito de um artista pegar a Escritura para cantar algo poderoso. É um artista fazer uma arte tão livre e poderosa que ela virou a Escritura. Ela está na Bíblia. Deus assinou embaixo.”
Rodolfo ainda compartilhou uma experiência recente. O Rodox tocou em um evento de prefeitura em São Luís, ao lado de Catedral, Novo Som e Oficina G3. Foi, nas palavras dele, “o lugar mais engazopado” que a banda visitou na turnê, pela pressão de se comportar como se fosse culto.
Uma repórter perguntou o que ele achava do preconceito que a música cristã sofre do lado de fora. A resposta foi direta: “A culpa é do rótulo que a gente usou. Se a gente não usar rótulo algum, as pessoas vão ter que experimentar e tirar suas próprias conclusões.”
E foi além: “O rótulo só serve para que as pessoas saibam se elas não vão ouvir.”




