Ajuntamento das Tribos mantém viva cena underground cristã
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Enquanto boa parte dos festivais ligados ao chamado rock cristão ficou pelo caminho, um encontro realizado numa rua íngreme de Alcântara, em São Gonçalo (RJ), continua reunindo a cena underground brasileira. O Ajuntamento das Tribos completa cerca de 30 anos de história e segue reunindo bandas, skatistas, famílias e gente que cresceu nesse ambiente, tudo por conta própria, sem patrocínio, ingresso ou estrutura de igreja-empresa.

Quem segura essa história é um grupo pequeno. José Carlos, conhecido como Zé Carlos, de 80 anos, evita até ser chamado de pastor fundador. Prefere dizer que é apenas um dos responsáveis pela comunidade. Ao lado dele está Ayrton Moreira, à frente do projeto Skate Colaborativo e diretor técnico da FASERJ (Federação de Skateboard do Estado do Rio de Janeiro), que também assina a curadoria musical do festival há mais de dez anos.

O nome nasceu de um evento, não da igreja. A origem está na antiga Comunidade S8, criada nos anos 80 pelo pastor Geremias de Mattos Fontes. Depois da passagem por Trindade e por um sítio em Marambaia, também em São Gonçalo, o aniversário da comunidade virou ponto de encontro da cena alternativa. O público passou a chamar aquilo de Ajuntamento das Tribos. O nome pegou e acabou ficando.
Hoje o espaço mantém pista de skate, área para camping, salas de apoio e um festival que chega à 16ª edição. Em 2026, o encontro acontece nos dias 5 e 6 de setembro, com dois palcos reunindo bandas de metal, hardcore e outras vertentes da cena associada ao chamado rock cristão.

Entre os nomes já confirmados estão Puritan, do Espírito Santo, Zive, de São Paulo, e For Life, de Niterói. Pelo palco do festival já passaram bandas como Antidemon, Sangue Inocente, Alva e Desertor, além de artistas de sonoridade mais tranquila, como Roberto Diamanso e Arthur Martins, que define seu trabalho como MPB (Música Pentecostal Brasileira).
Sem esconder a realidade, Ayrton diz que a cena atravessa um momento difícil. Segundo ele, boa parte das bandas acabou e as que seguem ativas fazem isso "na raça". Zé Carlos não discorda do diagnóstico. Para ele, o underground sempre teve um público próprio e nunca funcionou pela lógica dos grandes eventos. O que critica é transformar essa característica em um discurso de frustração, lamentação ou rebeldia. O Ajuntamento das Tribos nunca teve como objetivo disputar tamanho ou audiência, mas também nunca rejeitou crescer. "A gente fica feliz quando acontece", resume. O importante, afirma, é que o festival exista por convicção, sem medir seu valor pelo número de pessoas presentes nem pela comparação com eventos maiores.
O festival vai além dos shows. A programação inclui cultos, palestras, oficinas de skate e uma exposição sobre a história do underground cristão brasileiro. A aproximação com os moradores da região aconteceu aos poucos, muito por causa do projeto social de skate gratuito, que hoje atrai dezenas de crianças da comunidade.




