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Não sei se existe cena, mas sei que não precisamos de uma

19 de jul.
2 min de leitura
Não sei se existe cena, mas sei que não precisamos de uma
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Antes de tudo, é preciso fazer uma confissão de honestidade intelectual: não sabemos se existe, de fato, uma "cena" ou um "movimento" de rock cristão no Brasil. Talvez exista. Talvez seja apenas uma impressão criada por círculos específicos, redes sociais ou eventos. Faltam critérios, faltam dados e sobra percepção. Mas há uma coisa da qual podemos ter absoluta certeza: ainda que essa cena exista, ela não é necessária.

 

Toda cena nasce com uma promessa de união e termina produzindo identidade. E identidade coletiva, cedo ou tarde, começa a disputar espaço com aquilo que deveria ser o centro. O sujeito deixa de perguntar se a mensagem está sendo anunciada e passa a perguntar quem está dentro ou fora da cena. A banda deixa de ser conhecida pelo que canta e passa a ser reconhecida pelo grupo ao qual pertence. O palco continua o mesmo, mas o foco mudou.

 

É curioso como isso acontece. Ninguém acorda dizendo: "Hoje vou substituir a cruz pela cultura do grupo." A troca é lenta. Primeiro surgem amizades, depois eventos, depois grupos, depois panelas, depois disputas por legitimidade. Quando se percebe, gasta-se mais energia discutindo a cena do que anunciando Cristo.

 

A cruz nunca precisou disso.

 

Ela nunca precisou de um movimento paralelo para adquirir relevância. Nunca dependeu de uma estética específica, de um circuito fechado de artistas ou de uma comunidade preocupada em fortalecer a própria marca. A cruz sempre bastou a si mesma.

 

Toda vez que uma cena se torna importante demais, existe o risco de ela começar a falar mais de si do que daquele que dizia representar. É um fenômeno tipicamente humano. Onde há organização, surgem status; onde há status, surgem disputas; onde há disputas, nasce a vaidade. Não porque as pessoas sejam piores dentro do rock cristão, mas porque são humanas.

 

Por isso, talvez o maior serviço que uma banda cristã possa prestar ao evangelho seja justamente resistir à tentação de construir uma cena.

 

Que existam bandas, sim. Que existam músicos excelentes, festivais, amizades, parcerias e boa música. Mas que tudo isso permaneça periférico. O centro precisa continuar sendo Cristo, e não o ecossistema criado ao redor dele.

 

Bandas de rock/metal cristão não deveriam gastar energia tentando formar um movimento. Deveriam gastar energia servindo às suas igrejas, amando suas famílias, cultivando uma vida espiritual consistente, compondo boas canções e vivendo os valores que cantam. Porque quem está ocupado em cuidar da própria igreja, da própria casa, da própria alma e da fidelidade ao evangelho simplesmente não tem tempo para pensar em cena.

 

E talvez esse seja o melhor sinal de saúde: quando ninguém está preocupado em construir um movimento, porque todos estão ocupados demais carregando a própria cruz.

 

Por fim, pode-se pensar que essa rejeição a cena seja fruto de alguém que nunca experimentou o fogo do underground - ou até festivais grandes de rock cristão – e por isso critica. Mas infelizmente, para o portador desse argumento, o autor do texto produz eventos e música cristã há 15 anos e segue orando para que nenhuma vaidade de cena ocupe o espaço de Cristo em sua mente.


Juan



 

 
 
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