Tiago Cavaco volta às raízes com “Novas Convivências”
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Tiago Cavaco, pastor da Igreja da Lapa, em Lisboa, escritor, jornalista e músico, acaba de completar o lançamento de “Novas Convivências”. EP que foi pingando nas plataformas faixa a faixa, até a última sair hoje e fechar a conta. Gravadas em sequência e produzidas pelo próprio Cavaco, as quatro músicas nasceram de um método que ele descreve quase como trabalho de campo: uma “recolha etnográfica”, diz, como quem vai para o interior com um gravador debaixo do braço anotar as canções que o povo já sabe de cor.
“Não me vais apanhar em F.T.” parte de uma confissão em que, antes, o narrador se calava e engolia tudo; agora, sem papas na língua, promete dizer o que pensa. O refrão transforma “F.T.”, abreviação de falso testemunho, em uma espécie de compromisso com a verdade. Nem o poder escapa: se o rei estiver nu, vai ouvir o discurso cru.
“Vou tipo gladiador” tem como cenário uma arena onde a dor é certeza, mas a canção também fala de amor. Um verso descreve o gesto de passar a mão por ervas secas, imagem que remete à cena final de “Gladiador”, quando Maximus atravessa um campo de trigo e reencontra a esposa e o filho. A referência ao filme dá outro sentido à imagem do gladiador: não é só sobre lutar, mas também sobre o que existe depois da luta.
Com raiz no Salmo 129, na tradução dos Franciscanos Capuchinhos, “Muita guerra me fizeram” recupera um cântico de peregrinação sobre a resistência de Israel diante dos opressores. Cavaco diz que, depois do versículo bíblico, a letra “escreve-se sozinha”, quase folclore.

Na faixa-título, “Novas convivências”, o EP encontra sua última peça e, ao mesmo tempo, uma espécie de síntese. “Dei o melhor de mim / Não foram poucas as cedências / Mas devo encarar o fim”, canta Cavaco, antes de repetir a ideia que dá nome ao trabalho: buscar novas convivências. A música parte de uma separação, mas não fica presa à ideia de perda. Há uma disposição para procurar outros encontros, “na sombra e no sol”, sabendo ser “duro” e “mole” conforme a circunstância.
A letra termina recorrendo a Samuel Johnson e a uma reflexão sobre reconciliação, mágoa e amizade. Há um ponto, porém, em que nem a disposição para agradar nem a vontade de ser agradado permanecem e, com elas, desaparece também a possibilidade de renovar uma amizade. É um encerramento que dá ao título do EP uma dimensão menos pacífica do que a expressão pode sugerir: novas convivências também podem ser aquilo que vem depois de reconhecer que algumas antigas chegaram ao fim.
As quatro faixas também ganharam vídeos minimalistas, publicados no Instagram e no YouTube, produzidos por Tiago Cavaco e Newton Rodrigues e creditados à FlorCaveira. Os registros foram realizados no verão de 2026 e acompanham a simplicidade deliberada do projeto, sem transformar as músicas em algo maior do que elas próprias.
E é claro que não deixaríamos de perguntar sobre o rótulo “gospel”, automático no Brasil sempre que um artista cristão lança suas músicas. Cavaco esclarece: “Em Portugal, o público evangélico é muito pequeno para conseguir criar rótulos.” A FlorCaveira, selo do qual faz parte e é fundador, sempre preferiu a margem, e o público, garante, está longe da igreja: “A maior parte das pessoas que nos ouve por aqui não é crente.” O selo nasceu em Lisboa, em 1999, na ressaca dos anos de punk de Cavaco e companheiros, com uma regra só: nenhuma. Música nervosa ou calma, tanto faz. “Podemos fazer o que quisermos”, resume, frase que parece resumir o EP inteiro.
Ouça agora “Novas Convivências” na sua plataforma preferida e também na nossa playlist no Spotify.
