Quando Yvelise expôs o preconceito que o gospel não admite

“nós queremos que a nossa música toque nas rádios seculares, mas nós não tocamos músicas seculares na nossa rádio”, afirmou Yvelise durante uma entrevista ao programa Sala de Visitas, do Conexão Gospel.
A empresária, então vice-presidente da El Shadday e da gravadora MK Publicitar (respectivamente, atuais 93 FM e MK Music), cargos que dividia com a filha Marina, foi questionada sobre o preconceito contra a música evangélica.
Yvelise admitiu que havia uma contradição dentro do próprio segmento. Segundo ela, os artistas gospel queriam que suas músicas fossem executadas nas rádios seculares, mas as emissoras cristãs não faziam o mesmo com artistas de fora desse universo.
Que coisa, hein?! Estamos falando de 1996, quando a música gospel brasileira ainda estava longe de ocupar o espaço que conquistaria nas décadas seguintes. Yvelise de Oliveira já apontava uma contradição que continua aparecendo no debate sobre o gênero.

A declaração ajuda a entender como funcionava (e funciona) o mercado gospel. Na sequência, ela própria colocou o problema de maneira ainda mais direta: “vamos ver quem é que é preconceituoso. Nós somos. Eu reconheço que sou.”
De um lado, artistas e gravadoras evangélicas buscavam espaço fora do circuito religioso, enfrentando resistência de rádios comerciais e de outros setores da indústria musical. De outro, as próprias estruturas criadas para atender o público evangélico mantinham uma programação predominantemente fechada ao repertório secular.

A reivindicação por espaço no mainstream popular pressupõe, em alguma medida, uma disposição para circular nos dois sentidos. Quando uma rádio cristã não aceita música secular em sua programação, mas cobra que uma rádio secular abra espaço para música gospel, a relação deixa de ser exatamente uma via de mão dupla.
Três décadas depois daquela entrevista, uma das previsões feitas sem bola de cristal por Yvelise acabou se concretizando. Na mesma conversa, ela afirmou que “a música gospel vai ocupar todos os espaços”. Braba, né não?
Hoje, o gênero já está muito distante da condição de nicho que marcava o mercado em 1996. Artistas evangélicos aparecem entre os mais ouvidos nas plataformas de streaming, realizam shows em grandes estádios, fazem feats com artistas de fora do segmento, assinam contratos com gravadoras internacionais e dividem rankings com nomes de gêneros como sertanejo e (nosso irmão siamês, que, assim como o gospel, é uma coisa aqui e outra completamente diferente lá fora) o funk.
A fronteira que antes separava o gospel do mercado musical mais amplo ficou bem mais permeável. Mas a circulação não aconteceu exatamente nos dois sentidos.

Yvelise não apenas reclamava da existência de preconceito contra a música evangélica. Ela reconhecia que o próprio mercado do qual fazia parte reproduzia uma lógica semelhante.
E essa diferença é importante. Dizer que existe uma barreira do lado de fora é uma coisa. Admitir que também existe uma barreira do lado de dentro é outra.
Trinta anos depois, a música gospel conseguiu chegar a praticamente todos os grandes espaços do mercado musical, algo que a própria Yvelise havia previsto. O que permaneceu em aberto foi a outra metade daquela discussão: até que ponto a abertura deveria funcionar também na direção contrária?




