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O inferno segundo o vocalista do BRIDE

  • há 2 horas
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O inferno segundo o vocalista do BRIDE
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Poucos temas dividem tanto os cristãos quanto a questão do inferno. E Dale Thompson, vocalista do BRIDE, banda de metal cristão ativa há mais de 40 anos, escolheu o lado mais espinhoso do debate, com consequências que vão de rompimentos contratuais a ataques nas redes sociais.

 

Em entrevista ao canal Tim Ristow / Creative Christians, no YouTube, Thompson explicou com detalhes sua visão teológica, que ele prefere chamar de "reconciliatcionismo" em vez de universalismo cristão, termo que considera impreciso e facilmente confundido com o unitarismo.

 

O centro da crença é simples, mas provocador: Deus não perde ninguém para sempre.

 

"Acredito no mesmo Jesus que deixou as 99 ovelhas para buscar a única que estava perdida", disse Thompson. "Acredito no mesmo Jesus que morreu no lugar de Barrabás, que representava todos nós."

 

O inferno segundo o vocalista do BRIDE
Reprodução/Facebook

A mudança não aconteceu do dia para a noite. Thompson conta que foi um pregador de fogo e enxofre durante anos, com discursos inflamados sobre condenação eterna. A virada começou quando ele passou a estudar a etimologia de palavras bíblicas como "sheol", "gehenna", "hades" e "tártaro", além de questionar a identificação entre Satanás e Lúcifer, nome que aparece apenas uma vez na Bíblia e que, segundo ele, se referia a um rei humano, não a um anjo caído.

 

"Lúcifer significa 'portador de luz'. Não está em nenhum lugar que um terço dos anjos caiu com ele. Fui verificar e não encontrei", afirmou.

 

O processo levou quatro anos de estudo intensivo, cerca de oito horas por dia, período em que trocava mensagens com Gary Amirault, fundador do ministério Tentmaker, e com outros teólogos universalistas. Livros, fitas e folhetos chegavam pelo correio, todos gratuitos, o que Thompson interpretou como sinal de credibilidade. "Cultos querem algo de você. Eles não queriam nada."


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A conclusão que tirou é que o fogo bíblico tem função purificadora, não punitiva. Ele usa a imagem do ouro sendo fundido para separar as impurezas. "Deus é um fogo consumidor, mas esse fogo refina, não tortura. O que sobra depois do fogo é o que tem valor."

 

Outro ponto central de sua argumentação é o próprio vocabulário bíblico. A palavra grega "aionios", frequentemente traduzida como "eterno", significaria na verdade "relativo a uma era", ou seja, temporário. E a Geena, o inferno mais citado nos Evangelhos, é hoje um parque em Jerusalém. "O fogo foi apagado porque não havia mais nada para queimar. E o que nasceu depois foi vida, grama e árvores."

 

Thompson também questiona a lógica da condenação eterna aplicada a quem nunca ouviu falar de Jesus. "Bilhões de pessoas viveram e morreram sem que um missionário batesse à porta. Segundo a teologia tradicional, onde elas foram parar? Ninguém consegue me responder isso de forma coerente."

 

As consequências práticas dessa visão foram imediatas. Ao revelar sua mudança teológica ao empresário Dez Dickerson, que comandava o selo (StarSong) que distribuía o BRIDE, a resposta foi direta: "Onde mando os papéis da rescisão?" O contrato foi encerrado no mesmo dia.


Dale Thompson
Reprodução/Facebook

Nas redes sociais, Thompson admite provocar debates com frequência, às vezes postando conteúdo político só para observar as reações. Mas quando o assunto é teologia, ele é preciso sobre o que defende e o que não defende.

 

"As pessoas acham que estou dizendo que pode fazer o que quiser porque todo mundo se salva no final. Não é isso. Há consequências para o pecado, só que são correção, não tortura. Deus não é um monstro."

 

Para ele, o pior inferno já passou, e foi interior. "Nada vai te torturar mais do que você mesmo. Já passei pelo pior inferno possível e ele estava todo aqui dentro", disse, apontando para a própria cabeça.

 

A polêmica, Thompson sabe, não vai acabar. Mas após décadas de debate, ele já não se dispõe a travar longas discussões online. Prefere enviar respostas elaboradas e observar se o interlocutor realmente as lê antes de fazer a próxima pergunta. Quase nunca leem.

 

"As pessoas não querem ouvir o que eu tenho a dizer. Querem que eu confirme o que elas já pensam. E isso eu não faço."



Vale deixar claro antes: segundo o próprio Thompson e observadores da cena, essa teologia aparece de forma explícita em poucas músicas, mas permeia de forma mais sutil várias outras ao longo da discografia. Um comentarista do fórum Christian Chat chegou a dizer que, em toda a carreira da banda, são apenas cerca de quatro músicas onde o tema aparece diretamente.

 

Confira as músicas que mais revelam essa teologia. As mais explícitas:

 

"End of Days" (álbum Skin for Skin, 2006) A mais citada em todas as fontes pesquisadas. É considerada o exemplo mais direto do universalismo de Thompson. A letra fala em salvação para toda a humanidade, misericórdia sobre todos e usa a expressão bíblica "ele provará a morte por todo homem". Uma linha resume a visão teológica central: "Concluded them all in unbelief, he'll have mercy on everyone." O próprio Scott Waters, do Ultimatum, destacou esse álbum como o ponto mais honesto da fase universalista de Dale.

 

"Soul Winner" (álbum This Is It, 2003) Apontada ao lado de Skin for Skin como o período em que a teologia reconciliatória de Thompson começa a aparecer mais abertamente nas letras. O álbum como um todo tem tom mais agressivo e confrontador, incluindo críticas à indústria gospel, mas em Soul Winner o foco é a ideia de que Deus não desiste de ninguém.

 

“Soul Sabbath”: o romance onde Dale Thompson colocou sua teologia inteira numa ficção

O protagonista medieval se chama Mieszko. É um monge numa abadia beneditina real, o mosteiro de Podlažice na Boêmia. Ele tem uma revelação espiritual sobre a redenção da humanidade. Quando compartilha essa revelação, é julgado herege. A punição: ser emparedado vivo e obrigado a escrever o Codex Gigas, que é um manuscrito medieval real, o maior livro manuscrito do mundo, que existe até hoje na Suécia.

 

A lenda histórica real diz que o Codex Gigas foi escrito por um monge que fez um pacto com o diabo. Thompson pega essa lenda e a inverte completamente: o monge não pactuou com o diabo. Ele descobriu a verdade sobre a misericórdia de Deus e foi punido pela Igreja por isso.

 
 
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