Michelle Braglia questiona rótulos entre gospel e secular
- Redação SVM

- 9 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de jan.

Michelle Braglia olha para o velho debate gospel versus secular e enxerga um equívoco antigo. Vocalista do metal sinfônico Perpetual Legacy e teóloga, ela diz que a igreja brasileira herdou um olhar dividido sobre a vida. Como se Deus valesse no culto, mas não no resto do expediente.
Em entrevista ao Club of Rock Podcast, Michelle comentou que muita gente separa a realidade em duas gavetas. A do sagrado e a do profano. A da igreja e a do trabalho. A do domingo e a da segunda-feira. Para ela, a Bíblia aponta outro caminho. Um só mundo. Um só Deus soberano sobre tudo.
A cantora afirma que limitar Deus à música gospel é reduzir o próprio Criador. Se Ele criou a esfera da arte, não faz sentido tratá-la como território privado dos crentes. Michelle lembra que existem artistas não cristãos capazes de produzir beleza real, seja em canções, pinturas ou esculturas. Ela chama isso de digitais de Deus. Marca da Imagem e Semelhança presente em todo ser humano.
Esse fundamento teológico é simples e profundo. Mesmo quem não crê continua sendo Imago Dei. Carrega talento, criatividade, senso de beleza. Pode não abraçar a fé, pode nunca confessar Jesus, mas não perde a imagem. Para Michelle, é por isso que bons artistas existem dentro e fora da igreja.
A vocalista cita exemplos. Como a banda Sabaton, conhecida por narrar guerras e fatos históricos. Para ela, há beleza no real. O mundo não deixa de ser mundo porque não é gospel.
E como filtrar o que vale a pena ouvir? Michelle evita rótulos e fala em discernimento. O filtro, segundo ela, é o Espírito Santo. Se a música destrói a fé, zomba de Deus ou intoxica, o cristão percebe e evita. Não por legalismo, mas por maturidade. E essa régua vale para tudo: música, filmes, conversas, hábitos.

A cantora também desmonta a ideia de superioridade moral no consumo musical. Ela lembra que ninguém conhece a vida secreta dos artistas, nem dos que cantam na igreja. Todos são pecadores, aponta. A obra sempre sai um pouco manchada, seja ela gospel ou secular.
Essa visão derruba a dicotomia evangélica clássica e abraça a fé integrada. Trabalhar, descansar, estudar, comer, fazer arte, tudo para a glória de Deus. Sem aquela linha imaginária separando o culto do cotidiano.
O impacto da fala apareceu no próprio podcast. Um dos entrevistadores contou que passou a enxergar letras e estilos de outra forma. Não para virar juiz do que é santo ou profano, mas para entender o que edifica e o que não faz sentido consumir.
Michelle vive o que ensina. Sua playlist atravessa Cassiane, trilhas de filmes, Nightwish, After Forever, Bride, Bloodgood, Sacred Warrior e até Chitãozinho e Chororó. Ela não ouve tudo, não gosta de tudo, mas reconhece talento onde ele aparece. E diz que há poesia no sertanejo também.
Sobre o clichê de que o diabo cria a arte secular, Michelle é direta. O diabo não cria nada. Deus é soberano sobre arte, ciência, política, cultura, tudo. A distorção vem do pecado humano, não da criatividade em si.
No fim, a proposta não é liberar geral. É viver com liberdade responsável. Consumir com sabedoria. Reconhecer que Deus governa sobre o palco da igreja e sobre o palco do mundo. E que a fé adulta não precisa de muros entre o domingo e a segunda-feira.
Para quem acredita que só existe música de Deus quando o selo diz gospel, Michelle Braglia joga luz e pergunta: e se Deus estiver muito além dos rótulos?








