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Michael Passons e o preço de dizer quem é

  • Foto do escritor: Redação SVM
    Redação SVM
  • 8 de jan.
  • 6 min de leitura
Expulso do Avalon por ser gay, Michael Passons detalha a pressão da indústria gospel
Reprodução / The Patrick Custer Show

Michael Passons sabia tocar piano antes de saber amarrar o sapato. Lá no Mississippi, ainda menino, subia num banco e reproduzia as melodias da igreja. A música morava nele como quem não pede licença pra entrar. Em 1995, virou membro fundador do Avalon, grupo de música cristã que estourou com "Testify to Love" e encheu arenas pelo país. Mas havia um segredo que ele carregava como quem segura uma bomba relógio: Michael é gay.

 

Em conversa com Patrick Custer no The Patrick Custer Show, dividida em duas partes, ele contou pela primeira vez todos os detalhes de como tudo desmoronou. O grupo foi montado estrategicamente por empresários que queriam um ABBA gospel. Eles juntaram vozes, rostos bonitos e uma máquina de marketing poderosa. Michael foi o primeiro escolhido. Depois vieram outros, alguns saíram, novos entraram. A formação mudou mais de uma vez antes do primeiro disco sair.

 

O sucesso veio rápido demais. Na primeira apresentação da vida, o Avalon já abria o Young Messiah Tour, turnê gigante com 15 mil pessoas por noite ao lado de nomes como Michael W. Smith e Sandi Patty. Uma semana antes, esses eram os heróis de Michael. Agora dividiam o palco. Ele não sabia lidar com aquilo. Ninguém ensinou. Não tinha manual.

 

As pessoas gritavam o nome dele, não o de Jesus. Isso o incomodava. Ele sentia que tinha entrado por uma porta que não deveria ter atravessado. Mas a porta estava aberta, então entrou. E agradece por isso até hoje, mesmo com tudo que veio depois.


Expulso do Avalon por ser gay, Michael Passons detalha a pressão da indústria gospel
Reprodução

Enquanto a banda subia, Michael descia por dentro. Desde a adolescência ele sabia que era diferente. Numa festa no colégio, todos queriam beijar garotas. Ele só queria assar marshmallow. Foi aí que entendeu: algo nele não combinava com o resto. Na faculdade, a certeza veio de vez. Mas falar sobre isso? Jamais. Não naquela cidadezinha conservadora. Não naquela igreja pequena. Não naquela família de caçadores de veado onde ele era o único que preferia ficar em casa tocando piano.

 

Quando chegou a Nashville em 1990, Michael abriu a lista telefônica e ligou para terapeutas. Queria se consertar. Foi parar no consultório de Mike Malloy, terapeuta que oferecia terapia reparativa, aquela que promete transformar gays em héteros. Passou dois anos tentando mudar. Nada mudou. Então sobrou só a oração. Pedir pra Deus tirar aquilo dele. Mas Deus não tirou.

 

Michael começou a criar dois Michaels. Um ia pra igreja, subia no palco, sorria pras câmeras. O outro ficava trancado, quieto, morrendo de medo. Essa divisão funcionou por um tempo. Até que a raiva começou a crescer. Seus colegas de banda casavam, ele ia aos casamentos. Todo mundo feliz, celebrando o amor alheio. E ele? Ia desperdiçar a juventude inteira escondido?

 

Aí ele resolveu arriscar. Foi a um clube gay. Usou boné, ficou num canto, saiu sozinho. Mas alguém o viu. Alguém ligou pra gravadora. O presidente da Sparrow Records chamou Michael e disse que sabiam onde ele tinha estado no sábado à noite. Descreveram a roupa que ele usava. Michael nem negou. Pra que negar? Mas aquilo acendeu um alerta vermelho. Agora ele estava sendo vigiado.

 

A gravadora mandou Michael voltar pra terapia reparativa. Ele foi, sentou na cadeira, viu olhares tristes, desistiu de novo. Voltou pra estrada. Mas em 2003, um colega de banda o viu em situação suspeita. Quando perguntaram, Michael mentiu. Mentir era a única forma de sobreviver naquele mundo. Mas a mentira não bastou. Esse colega começou uma campanha agressiva pra tirar Michael do grupo. Deu um ultimato: ou ele sai ou eu saio.

 

No dia 30 de junho de 2003, os três membros do Avalon apareceram na casa de Michael sem avisar. Disseram que ele estava fora. Simples assim. Foi como ser jogado de um ônibus em movimento. Ninguém parou pra olhar pra trás. Michael perdeu tudo de uma vez: amigos, comunidade, carreira, salário, identidade. Ficou no chão por anos. Nashville inteira sabia do segredo dele agora. Ele virou mercadoria estragada na cidade da música gospel.

 

Durante 17 anos, Michael ficou em silêncio. Até que em 2020, num podcast com Josh Skinner, algo estourou dentro dele. Resolveu contar a verdade. A notícia virou viral. A Billboard fez matéria. O mundo descobriu que aquele comunicado oficial de 2003, aquela historinha de que Michael tinha saído pra buscar outras oportunidades musicais, era mentira. Ele foi expulso por ser gay.

 

Hoje, Michael diz que não se arrepende de nada. Passou anos desmontando caixas de mudança, aquelas crenças que enfiaram nele desde criança. Reconstruiu tudo do zero. Parou de ter vergonha. Entendeu que não é um erro da natureza. Ninguém escolhe ser gay, assim como ninguém escolhe ser hétero. Ele é assim por design.

 

Ainda é uma pessoa de fé, mas não é mais religioso. Não finge saber quem Deus é. Só pede que a cada dia o divino se revele um pouquinho mais. E se sente mais perto de Deus agora do que quando sentava naqueles bancos de igreja.

 

Michael voltou a escrever músicas. Desta vez, sem mentiras. As canções fluem porque agora ele não esconde mais nada. Tem seis ou sete prontas. Uma delas se chama "Destined to Be" e fala sobre aceitar que talvez seu destino nunca tenha sido cavalgar pro pôr do sol num grupo de sucesso. Talvez fosse passar por tudo isso pra ajudar outras pessoas. Ele quer gravar antes de morrer. Não quer que a última coisa que deixou no mundo seja aquele disco antigo do Avalon.

 

Há pouco tempo, numa noite de música country na Second Avenue, em Nashville, Michael subiu no palco e cantou "Testify to Love" pela primeira vez em décadas. A plateia cantou junto. Ele olhou e viu gente de todas as idades cantando aquela canção de amor. Percebeu que estava cantando como um homem diferente. E isso fez diferença.


 

Ele recebe mensagens no Instagram de gente no mundo todo pedindo ajuda. Como você fez? Como eu posso fazer? Michael não tem todas as respostas. Cada história é única. Mas ele conta a dele. E espera que isso baste. Espera ser a estrela do mar que alguém joga de volta pro oceano. Pelo menos uma.

 

Quando o pai de Michael perguntou se ele era homossexual, Michael negou. O pai disse que eles podiam arrumar ajuda. Ele não estava sendo maldoso. Era um homem do campo que amava o filho e achava que dava pra consertar. A mãe de Michael morreu em 2008 sem nunca ter ouvido a verdade da boca do filho. Ela perguntava por que ele era tão triste. Ela sabia, mas Michael nunca teve coragem de falar. Hoje ele escreveu uma música chamada "Trust Your Love" sobre isso. Sobre como gostaria de ter confiado no amor dela.

 

Michael olha no espelho e não vê mais um impostor. Vê um homem que sobreviveu. Aquele garotinho tímido e assustado do Mississippi salvou a vida dele várias vezes. Por isso ele ainda está aqui. Por isso ainda tem música pra fazer. Por isso ainda quer encontrar o amor da vida dele. Ele jogou essas intenções no universo. Agora é só esperar.

 

A voz dele mudou. Não a voz que canta. A outra. Aquela que fala dentro da cabeça. Antes ela dizia que ele era feio, velho demais, incapaz. Agora ela diz outra coisa: o que você fala, mesmo que só pra si mesmo, tem poder de virar realidade. Então vai com calma, Michael. Pensa positivo. Coloca no mundo o que você quer que aconteça, não o que você tem medo que aconteça.

 

Ele não é mais aquele esponja de dinossauro comprimida numa cápsula. Já saiu. Cresceu. Tomou forma. E não tem como voltar pra dentro da casca. Essa evolução não tem volta. Ele está do outro lado de uma linha que nunca imaginou cruzar. Mas a linha não foi ele quem desenhou. Então tá tudo bem estar desse lado. Ele aprendeu a amar esse lado.

 

Michael quer que quem está lendo saiba: se você é a única pessoa no mundo passando por isso, essa história é pra você. Você vale. Você importa. Às vezes salvar uma estrela do mar já é o bastante. Não precisa salvar todas. Só uma já faz toda a diferença do mundo.


Olympia Apresenta Oficina G3 e Avalon
Como curiosidade histórica, o Avalon esteve no Brasil pela primeira vez em 21 de junho de 1999, na gravação do DVD acústico do Oficina G3, no Olympia, na cidade de São Paulo. Logo na abertura, o letreiro da casa exibe: “Apresenta Oficina G3 e Avalon”.

 
 
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