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Cassiane cantou saudade. Calmará exige devolução

  • há 5 horas
  • 3 min de leitura
“Devolva a Minha Igrejinha”, da Calmará
Foto: Rafael Ferreira

Pelo visto, timing não é só coisa de piada. “Devolva a Minha Igrejinha”, da Calmará, chega quando a própria realidade das igrejas já tinha escrito, e exagerado, o roteiro por conta própria.

 

Depois da turnê e de todo o auê em torno de “O Grande Banquete”, do Coletivo Candiero, a Calmará da Parahyba volta com material inédito. E não volta feito bicho do mato. Nada daquele retorno tímido de quem chega atrasado na conversa. O quarteto reaparece afiado, bem afiado mesmo, como as pontas da fonte gótica na abertura do videoclipe, com os pés no presente e o olhar grudado no que está acontecendo, sem fingir que não viu nada.

 

Sem querer causar inveja, mas já causando: Pois é, tivemos a honra de conferir em primeira mão.

 

A faixa, que aponta para um álbum ainda sem nome e sem data, surge num cenário que nenhuma equipe de marketing conseguiria planejar. R$ 41 milhões circulando numa igreja de luxo em Belo Horizonte viralizaram antes de desaparecer em silêncio, com portas trancadas. Sim, fechada por corrupção, não por Lula. A realidade já se encarregou de ser mais absurda do que qualquer fake news.

 

“Devolva a Minha Igrejinha”, da Calmará
Foto: Rafael Ferreira

A igrejinha no miolo da música, com participação do capixaba Cesar MC, não é novidade. Em 1993, Cassiane já perguntava: “Onde está agora aquela igrejinha?”, lembrando da igreja pequena, apertada, sem luz, mas onde o céu parecia se abrir quando o pastor pregava. Trinta anos depois, a Calmará faz a mesma pergunta. Só que sem nostalgia nenhuma. Aqui não é saudade. É cobrança. Devolva.

 

Até porque agora tem réu, né?

 

Aliás, tem vários. Não um só. Uma categoria inteira que foi se acumulando ao longo dos anos. Nomes, denominações, escândalos, portas fechadas sem explicação, bancos associados encerrados às pressas, púlpitos que viraram palanque, dízimos que viraram fundo eleitoral. A lista é longa. E ainda tem gente que nem apareceu direito nela.

 

Calmará: Devolva a Minha Igrejinha
Foto: Rafael Ferreira

O clipe, com direção de Cidinho, merece atenção. Gravado nas ruínas da Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso, em Lucena, na Paraíba, construída em 1789, o cenário já diz muita coisa antes da música começar. As vestes brancas puxam para um imaginário quase apocalíptico, aquele símbolo de quem não contaminou a própria consciência. Ok, talvez a gente já esteja te influenciando aqui. Sorry. Mas, com uma banda que trabalha assim, fica difícil saber onde termina a coincidência de lançar em 1º de abril e onde começa a provocação pensada.

 

A letra empilha verbos no infinitivo como quem monta um raio X do evangelicalismo contemporâneo: instagramar, se eleger, sempre ganhar, se proteger, só em si pensar, se franquear. Um por um, eles vão invertendo o que a tradição cristã entende como vocação. Servir vira se proteger. Anunciar vira instagramar. Comunidade vira franquia. E, convenhamos, daria inveja em muito McDonald’s por aí.

 

E quando chega o refrão, uma palavra segura tudo. Não é “me dê uma igrejinha”. Não é “quero uma igrejinha”. É devolver.

 

E só devolve quem tomou.

 

O verbo não deixa escapar. Existe posse ilegítima aí. Algo foi tirado de quem tinha direito.

 

A igrejinha que a Calmará pede de volta não tem área VIP, nem banco associado, nem jatinho, nem doador eleitoral. Tem a “tia da oração depois de um dia de cão, naquela unção de quem confia e não vive numa ilusão”.


Calmará: Devolva a Minha Igrejinha
Foto: Rafael Ferreira

No fim, fica a dúvida. Como essa música vai bater em quem prefere procurar pelo em ovo e ignorar o todo? Porque o todo está aí. Na timeline, na TV, nos autos do processo. E agora, também na música.

 

Dia 1º de abril: “Devolva a Minha Igrejinha” em todas as plataformas.

 
 
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